domingo, 7 de julho de 2013

MINHA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO (2012-2013)


Misticismo e apofaticidade em A Nuvem do Não-Saber de um escritor anônimo do século XIV


RESUMO

O trabalho que o leitor tem em mãos, trata da minha dissertação de mestrado acerca do tema da contemplação na Nuvem do Não-Saber. A Nuvem do Não-Saber é uma obra que data do medievo tardio (séc. XIV), tendo sido escrita provavelmente por um monge cartuxo, como modo de ensinar a um jovem em torno de vinte e quatro anos, acerca da vida contemplativa. Na obra, o autor compara a vida contemplativa a duas importantes personagens bíblicas: em primeiro lugar, compara-a a Maria, que tendo recebido Jesus em sua casa, senta-se a fim de, paciente e atenciosamente, ouvi-lo, diferentemente de Marta (sua irmã), que se apressa em preparar-lhe a refeição. Em segundo lugar, mas tão importante quanto, compara a vida contemplativa a Moisés que, com muito esforço, sobe ao cume do monte e vê ali, uma grande nuvem (...). 



Para ler a dissertação na íntegra clique no link abaixo:





Projeto Desativado - S.K.

         
Fragmento de uma foto retratando um pocket trumpet, retirado da Wikipédia
Autor: José-Manuel Benito


DA NEGATIVIDADE E DA POSITIVIDADE DO PLANO ESTÉTICO

            José Paulo Coelho Faradji Chadan

            1. OBJETIVO

Este projeto tem por objetivo investigar a negatividade e a positividade no plano estético e para tal, utilizará duas obras, a saber, Diário de um Sedutor[1] e O Erótico Musical, ambas escritas por Sören Aaybe Kierkegaard e inseridas no obra intitulada Ou,ou.
No Diário de um Sedutor, a figura principal é Johannes. Apontarei então, para a negatividade em Johannes, enquanto um sedutor que nunca alcança o que deseja, pois, no momento em que vai alcançar, o desejado, se desfaz imediatamente. Apontarei também para a positividade indireta em Johannes. Indireta, pois, novamente, Johannes não chega a usufruir dela (deste momento de verdade).
Após esgotar o assunto Johannes, investigarei Don Juan, figura principal apresentada no Erótico Musical. Apontarei para a negatividade em Don Juan, posto que Don Juan não consegue perpetuar aquilo que alcança no instante e depois, apontarei para a positividade don juanesca, que é justamente o fato de Don Juan alcançar o desejo no instante e fruí-lo honestamente. Embora tenha imediatamente de passar para uma nova conquista, uma nova mulher, encontrando assim, um novo instante no qual pode alcançar novamente seu momento de positividade e de verdade.

            2. JUSTIFICATIVA

O que me faz querer investigar os dois movimentos ocorrentes no plano estético, a saber, o primeiro movimento que é o da negatividade e o segundo movimento, que é o da positividade, é por serem estes, fundamentais no interior da dinâmica do plano estético.
Embora na ordem dos textos, Don Juan apareça antes de Johannes, julguei conveniente alterar a ordem, no intuito de mostrar, quase que socraticamente, primeiro o movimento da negatividade, representado por Johannes, depois, o movimento da positividade, representado por Don Juan.
Entretanto, acrescentarei um pouco mais de dialética, mostrando que no movimento da negatividade existe um apontar indireto para a positividade, e que, no movimento da positividade existe alguns aspectos de negatividade.
Tal complexidade é importante que seja ressaltada, para que se perca o preconceito em se olhar o plano estético sempre e somente na sua negatividade e como algo a ser superado.
Por fim, justifico a escolha do tema do presente projeto, por ser pouco estudado pelos pesquisadores no Brasil, que tem tido maior interesse pelas etapas ética e religiosa do que propriamente pela etapa estética no caminho da vida.

             
3. DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA

            3.1 JOHANNES: A ASTÚCIA SENSÍVEL

Minha primeira hipótese é a da negatividade ou, do movimento negativo na sedução de Johannes. Johannes sendo, em primeiro lugar, um sedutor reflexivo, ou seja, um sedutor que reflete sobre as artimanhas necessárias à sedução. Vendo Cordélia passar, estende-lhe o tapete; avistando-a a olhar-se no espelho, olha por detrás; escreve-lhe cartas de amor, cativando e seduzindo-a. No entanto, tudo o que Johannes deseja, é a entrega inocente de Cordélia, que se desfaz, no instante mesmo da entrega; de modo que Johannes sempre se afasta para uma nova reaproximação, posto que percebe, no limite, a incoerência e o fracasso da realização de seu desejo. Tentarei então, adentrar os meandros de tal problemática e negatividade.
Após o que, investigarei minha segunda hipótese: o conceito de negatividade enquanto desejo que não se realiza, posto que se desfaz no instante mesmo em que começaria por realizá-lo. Minha hipótese é que o começo da realização do desejo conduz à sua própria irrealização. Johannes vive numa circularidade negativa  e seu desejo gira nesta circularidade negativa. Negativa posto que quando vai se concretizar, fracassa e o circular, se faz inevitável (a não ser que se tome consciência e mude a estratégia da sedução ou o próprio desejo).
Minha terceira hipótese tentará mostrar por quê Johannes é a personagem que ocorre no âmbito da palavra. E os apontamentos que por hora possuo, são: A palavra é o meio de expressão em Johannes, justamente por ser a palavra, o meio pelo qual as ações podem ser pensadas e refletidas podendo então, desdobrar-se do pensamento para a ação e da ação para o pensamento e de onde portanto, podem se auferir “silogismos” ou estratagemas para seduzir. Contudo, buscarei apontar também neste caso, o que há de negativo, posto que o pensamento desdobrado em ação e vice-versa, impedem o livre fruir do instante na sua positividade.
Minha quarta e derradeira hipótese então, é de que pode haver um momento de verdade e portanto, de positividade em Johannes, que, no entanto, é apenas positividade indireta, posto o fato de Johannes nunca fruí-lo positivamente. Tal, é o processo que o sedutor consegue desencadear em Cordélia. Processo este, que faz Cordélia conhecer aspectos de si mesma, que, se não fosse Johannes seduzindo-a, ela jamais conheceria. Contudo, tal positividade só o é, para Cordélia, posto que Johannes, não chega a fruí-la, retirando-se no momento da entrega inocente, por perceber, no limite, a impossibilidade da mesma, e permanecendo assim, Johannes, na negatividade.

3.2 DON JUAN: A GENIALIDADE SENSÍVEL

Iniciarei por desmistificar Don Juan, ou, melhor dizendo, em mostrar que o Don Juan de Kierkegaard não tem relação alguma com o Don Juan concebido pelo senso comum. O Don Juan concebido pelo senso comum é uma espécie de sedutor barato e infeliz ao passo que o Don Juan de Kierkegaard nem é um sedutor no sentido rigoroso do termo e tão pouco é infeliz.
Minha primeira hipótese consistirá em mostrar a positividade de Don Juan. Tal positividade se mostra na total honestidade de Don Juan, pois este, deseja honestamente esta ou aquela mulher e, do outro lado, a mulher, percebendo isto, apaixona-se. A honestidade de ambos os lados constitui a positividade do plano estético (ainda que tal positividade se dê no momento da entrega e se desfaça logo em seguida, ocorrendo assim, no instante). A positividade se mostra também, pois a mulher “seduzida”, tem certeza de que foi desejada e amada (ainda que apenas no instante da entrega), porém, ela sabe que Don Juan tem de partir para uma nova conquista e, apesar de sofrer, o “deixa” ir[2].
Disto, seguirei apontando para a repetição no plano estético. Cada nova mulher, cada nova conquista, cada novo instante, é justamente, a repetição da experiência estética em Don Juan, e esta, positiva. Portanto, minha segunda hipótese será investigar o conceito de repetição e mostrar como a repetição se dá no instante de cada nova entrega e de cada nova conquista. O instante enquanto fruição, além de ser passível de repetição, é imediatamente positivo.
Minha terceira hipótese será mostrar que quando o cristianismo posiciona a figura de Don Juan, faz assim, aparecer seu aspecto de negatividade, enquanto algo que deve ser superado.
O cristianismo da Idade Média tardia, posiciona Don Juan como o arquétipo da vida carnal, da vida mundana, da sensualidade e do demoníaco. A sensualidade, segundo Kierkegaard, já estava no mundo antes do cristianismo, mas é somente quando este a posiciona (e o faz utilizando a figura de Don Juan), que ela se torna determinação do espírito e objeto de reflexão, pois antes, com os gregos, a sensualidade era vivida animicamente[3].
Por fim, minha quarta e última hipótese implicará em mostrar porque somente a musicalidade pode representar Don Juan enquanto genialidade sensível. As impressões que saltam à vista então, são de que Don Juan não poderia, como Johannes, ser expresso pela palavra, pois carece de reflexão. Sendo assim, só a musicalidade pode expressá-lo, posto que a musicalidade, assim como Don Juan, é pura fruição, onde um instante é seguido de outro sem, no entanto, formarem um todo, antes, cada instante alcança em si mesmo, sua tonalidade, sua eternidade. Na musica, cada nota tocada no instante, se eterniza e, logo, passa-se à nota e ao instante seguinte, do mesmo modo que Don Juan passa à mulher seguinte e ao instante seguinte (que se eterniza positivamente).

4. METODOLOGIA

O trabalho será desenvolvido em dois momentos:
Partindo da figura de Johannes e tendo por texto base, O Diário de um Sedutor, explorarei este texto, bem como os comentadores do mesmo, na tentativa de clarear o significado de Johannes enquanto negatividade no plano estético. Para não ser superficial ou parcial, tratarei também de uma possível positividade ou um apontar indireto para a mesma, mostrando a dialética interna existente na figura de Johannes. Perpassarei por Cordélia então, posto a impossibilidade em falar de Johannes sem citar Cordélia. E mostrarei como e quais os processos que Johannes desencadeia nela, de tomada de consciência e descobertas (apesar dele mesmo não usufruir disto).
Após o que, explicitarei acerca da figura de Don Juan, desta vez, tomando como texto de apoio O Erótico Musical, bem como os comentadores do mesmo. Investigarei a positividade no plano estético, representada por Don Juan. Falarei da “sedução natural” e/ ou da “honesta sedução” enquanto positividade que ocorre no instante da entrega e no fruir positivo da mesma. Falarei da musicalidade como essência que expressa Don Juan, justamente por ser, assim como Don Juan, pura fruição que se eterniza no instante e se repete a cada novo instante.
Disto, passarei ao cristianismo vigente na Idade Média tardia, que ao posicionar Don Juan, o faz, como algo a ser superado. Tratarei então, do aspecto negativo em Don Juan, ou, do aspecto que o cristianismo medieval[4] viu e posicionou em Don Juan. Mostrando assim, a dialética existente também, no interior da figura de Don Juan.
Portanto, embora eu indique Johannes enquanto negatividade e Don Juan enquanto positividade, esforçar-me-ei  em mostrar a positividade indireta que há em Johannes e a negatividade posicionada pelo cristianismo medieval, que há ou é apontada em Don Juan, fazendo ver assim, a complexidade e a dialética interna no plano estético em ambas as personagens.

            5. PLANO DE TRABALHO

            De março de  2009 à outubro de 2009, Pesquisa bibliográfica para elaboração do primeiro capitulo.
            De outubro de 2009 à fevereiro de 2010, Esboço do primeiro capitulo.
            De março de 2010 à outubro de 2010, Leitura critica do material escrito e finalização.
            De outubro à fevereiro de 2011, Pesquisa bibliográfica do segundo capitulo.
            De março à outubro de 2011, Dialogo com o orientador e escrita do texto.
            Novembro de 2010, Pré-defesa.
            Fevereiro de 2011, Defesa.
           

            6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
           
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Trad. Bosi, Alfredo e Benedetti, Ivone Castilho. Martins Fontes, São Paulo, 2000.
KIERKEGAARD, Soren Aaybe. Either/Or, A Fragment of Life. Trad. Hannay, Alastair. Peguin Books, [  ].
KIERKEGAARD, Soren Aaybe. O lo Uno o lo Otro, el fragmento del vita. [     ].
 KIERKEGAARD Soren Aaybe. Ou Bien, Ou Bien. [    ].
KIERKEGAARD, Soren Aaybe. Trad. Hong, Howard V. e Hong, Edna H. Unicamp, Princeton, New Jersey , [   ].
PAULA, Marcio Gimenes de. Subjetividade e Objetividade no Debate entre Socratismo e Cristianismo em Kierkegaard: Uma Analise A Partir Do Pos-Scriptum. Orientador> Prof Dr. Oswaldo Giacóia Junior. Unicamp, Campinas, 2002.
CLAIR, André. Pseudonymie et Paradoxe, La Pensée Dialetique de Kierkegaard. Librairie Philosophique J. Vrin, Paris, 1976.
KIERKEGAARD, Soren Aaybe. Estética y Ética em la Firmación de la Personalidad. Trad. Marot, Armand. Editorial Nova, Buenos Aires, [    ].
VERGOTE, Henri-Bernard. Sens et Répetition, Essai Sur L’ironie Kierkegaardienne. Cerf Orant, tome I, 1982.
VERGOTE, Henri-Bernard. Sens et Répetition, Essai Sur L’ironie Kierkegaardienne. Cerf Orant, tome II, 1982.
BLANC, Charles Le. Kierkegaard. Trad. Appenzeller, Marina. [19--].
GARDINER, Patrick. Kierkegaard. Trad. Vilela, Antônio. São Paulo, 2001.
SOREN KIERKEGAARD PAPIRER. Ed. P. A. Heiberg, V. Kuhr, & E. Torsting (11 volumes em 18 partes). Copenhagen: Gyldendalske Boghandel Nordisk Forlag, 1909-48.

SOREN KIERKEGAARD SAMLEDE. Ed. A. B. Drachmann, J. L. Heiberg, H. O. Lange. Copenhagen: Gildendalske Boghandels Forlag, Terceira Edição – 1962-64 (20 volumes). Primeira Edição – 1901-06; Segunda Edição – 1920-36 (15 volumes).


ROHDE, Peter. Ed. The Diary of Søren Kierkegaard. New York, NY: Carol Publishing Group, 1993.

AGACINSKI, Sylviane; Aparté: Conceptions and Deaths of Søren Kierkegaard. Tallahassee, FLA: Florida State University Press, 1988.

ALLEN, E. L.; Kierkegaard: His Life and Thought. London, UK: Stanley Nott Ltd., 1935.

ALLISON, Henry; "Christianity and Nonsense" in Essays on Kierkegaard, ed. Jerry H. Gill. Minneapolis, MN: Burgess Publishing Co., 1969. Also published in Kierkegaard: A Collection of Critical Essays, ed. Josiah Thompson. Garden City, NY: Doubleday-Anchor Books, 1972.

ARBAUGH, George E. & Arbaugh, George B.; Kierkegaard's Authorship: A Guide to the Writings of Kierkegaard. London, U.K.: George Allen & Unwin LTD, 1968.

BAIN, John A.; Søren Kierkegaard: His Life and Religious Teaching. London, UK: Student Christian Movement Press, 1935.

BERRY, Wanda Warren; "Kierkegaard and Feminism" in Kierkegaard in Post-Modernity, eds. Merle Westphal and Martin J. Matuštik. Bloomington and Indianapolis, IN: Indiana University Press, 1995.

BLANSHARD, Bland; "Kierkegaard on Faith" in Essays on Kierkegaard, ed. Jerry H. Gill. Minneapolis, MN: Burgess Publishing Co., 1969.

BROWN, Alison Leigh; "God, Anxiety, and Female Divinity" in Kierkegaard in Post-Modernity, eds. Merle Westphal and Martin J. Matuštik. Bloomington and Indianapolis, IN: Indiana University Press, 1995.

CAMPBELL, Richard; "Lessing's Problem and Kierkegaard's Answer" in Essays on Kierkegaard, ed. Jerry H. Gill. Minneapolis, MN: Burgess Publishing Co., 1969.

CAPUTO, John; "Instants, Secrets, and Singularities: Dealing Death in Kierkegaard and Derrida" in Kierkegaard in Post-Modernity, eds. Merle Westphal and Martin J. Matuštik. Bloomington and Indianapolis, IN: Indiana University Press, 1995.




  











[1] A tradução correta seria, Diário do Sedutor, mas os tradutores não foram rigorosos quanto à isto.
[2] Don Juan tem de ir para uma nova conquista, pois ele não busca uma mulher especifica, antes, busca em cada mulher, o que todas as mulheres tem em comum, isto é, a essência da mulher.
[3] Ponto questionável. Platão mesmo, refletiu sobre Eros e sobre o amor.
[4] Cabe notar que o cristianismo do medievo, que posiciona Don Juan enquanto negatividade e algo a ser superado, não é de maneira alguma, o cristianismo proposto e entendido por Kierkegaard enquanto tal. 

DESENHOS E OUTROS RABISCOS


FANTASIA
Grafite 2b e 6b em papel sulfite
José Chadan


Lápis grafite em sulfite A4
Autor: José Chadan

Grafite em papel sulfite A4
Autor: José Chadan

Sulfite A4 e grafite 2b
José Chadan

Lápis 2b e folha A4
José Chadan

Capa de um dos meus blogs deletados.
Autor: José Chadan




CARTA A UM AMIGO ESPIRITUAL NO SENHOR

DUAS LEITURAS POSSÍVEIS DA PARÁBOLA DO PUBLICANO E DO FARISEU ( Lc 18, 9-14):


(i) sobre a arrogância espiritual (fariseu) e a humildade em reconhecer-se pecador e necessitado da Graça (publicano).


(ii) sobre a relação afetiva/amorosa e a relação jurídica entre Deus e o homem; Graça X Lei; Publicano X Fariseu.

Fariseu e Publicano
Afresco na Abadia de Ottobeuren
Fonte: Wikipedia


      No Evangelho de Lucas 18, 9-14*, Jesus narra a parábola do publicano e do fariseu. Nela, diz-se que os dois subiram ao templo para orar. O fariseu, estando de pé, orava consigo mesmo, afirmando-se e dando graças a Deus por não ser como os demais homens, injustos, ladrões, adúlteros e nem ainda como aquele publicano (referindo-se ao publicano que também entrara no templo). O publicano por sua vez, de longe e cabisbaixo, orava batendo no peito e pedia perdão a Deus por seus muitos pecados. Jesus conclui a parábola dizendo que o publicano descera justificado para sua casa, e não o fariseu; pois qualquer que se exalte será humilhado e qualquer que se humilhe será exaltado.

Amigo espiritual, te digo que o Senhor ao narrar tal parábola, não se preocupava com a veracidade ou falsidade de ambas as orações proferidas. Por certo, o fariseu estava sendo verdadeiro quando dizia não roubar, não adulterar e não ser injusto, assim como o publicano dizia a verdade ao confessar-se pecador. Repito: Tal parábola não trata acerca da verdade ou falsidade das orações proferidas!

A parábola trata de apontar o pecado cometido pelo fariseu por confiar em suas boas obras e da virtude do publicano em reconhece-se pecador e necessitado da graça. Existe aqui, dois movimentos: o primeiro de apontar o pecado da arrogância espiritual e o segundo de revelar a humildade como importantíssima virtude cristã, daquele que reconhece sua miserável condição e sua consequente necessidade do auxílio da graça. E por isto, meu amigo espiritual, te digo que um foi justificado, porque embora tivesse muitíssimos pecados, era capaz de reconhecer sua condição desfavorável e sua permanente necessidade do auxílio da graça e do perdão, enquanto o outro, embora não tivesse muitos pecados, tinha entretanto, um pecado que ofuscava-lhe todas as virtudes –  o pecado da arrogância espiritual.

O arrogante espiritual é aquele que julga não precisar do perdão e do auxílio divinos, achando que suas boas obras bastam diante de Deus. Ao passo que o humilde espiritual é aquele que reconhece sua precariedade e sua permanente necessidade da graça e auxílio divinos e do perdão cotidiano que Deus nos concede. Um, possui um pecado que ofusca todas as suas virtudes, outro, possui uma virtude que ofusca (pela graça) todos os seus pecados.

Portanto, meu amigo espiritual, quando fordes orar, fazes como o publicano, que envergonhado pedia perdão a Deus por seus muitos pecados. Pois para aquele que tem comunhão com Deus, até o pecado o aproxima de Deus (por causa do coração humilde e do reconhecimento da necessidade da graça), ao passo que para aquele que não tem comunhão com Deus, até a virtude e as boas obras o afastam Dele (por julgar-se superior aos demais).

 Outrossim, pode-se ler a mesma parábola  sob outro ponto de vista: O publicano como representante da relação afetivo-amorosa para com Deus, e o fariseu representante da relação jurídica para com Deus. Enquanto o fariseu apresenta ao Senhor suas boas obras correspondentes à justiça divina que "obrigaria" o Senhor a retribuir-lhe com bençãos, o publicano, não tendo como apresentar boas obras, apela para o amor de Deus,  Seu perdão e Sua afetividade.

      Sob este ponto de vista, Jesus quer ensinar de que colocadas lado a lado a relação afetiva e a relação jurídica de Deus para com o homem e vice-versa, ainda que o homem cumprisse toda a lei impreterivelmente, como por exemplo, no caso do fariseu, ainda assim, Deus continua preferindo a relação de proximidade que a afetividade proporciona. Por isto, o publicano desceu do templo exaltado e o fariseu humilhado. Deus escolhe pelo amor ao invés da justiça; pelo afeto ao invés do "toma lá da cá" das responsabilidades e deveres sociais; escolhe pela Graça ao invés da lei; ser chamado de Pai ao invés de credor ou Juiz.

Portanto, meu amigo espiritual, quando fordes orar, fazes como o publicano, que lembrando-se de Deus escolheu chamá-Lo de "Pai",  ou para ser mais coerente com o texto bíblico, escolheu confiar em Seu perdão e amor, ao contrário do fariseu, que lembrando-se de Deus, achegou-se como um credor se achega do devedor, esperando receber a paga.
    



 Paz e Bem,

 José Chadan



***



PUBLICANO:                            FARISEU:                                                                              

Graça                                               Lei                                                                                              
Amor                                                Justiça                                                                                                 
Perdão imerecido                      Castigo/recompensa                                          


Deus-pai                                        Deus-juiz                                            



Humildade                                         Arrogância        

_________

* Cf. BÍBLIA SAGRADA. Trad. João Ferreira de Almeida, Revista e corrigida. 76 ed. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1993, 
Luc. 18, 9-14.
       





Razão e Fé 3


O Sonho da Razão Produz Monstros,  de  Goya  (1746-1828)


Texto produzido em parceria com meu pai.

Dos contextos em que se dão os fatos nos restam a lembrança das imagens e das vivências que a memória retém e organiza e a razão abstrai daquelas que provém da imaginação. A razão como condição da objetividade separa os dados da experiência dos da crença em seres sobrenaturais aos quais só acolhe sob condição de poder atribuir-lhes os fatos. Este é em geral o tipo de argumento em que se baseia a racionalidade da crença religiosa.

Crença sem fé não gera ação, pois não se age senão pela confiança nas próprias possibilidades e naquelas que se espera obter. Na pratica no entanto, crença e fé se entrelaçam de modo que, crença não só considere as próprias condições, mas também aqueles que se espera receber de fonte natural ou sobrenatural em que se confia/ tem fé. Não fosse assim, nosso campo de ação seria reduzido ao imediato e presente. Na base de toda ação humana está o binômio crença e fé, que ao tornar-se religioso suscita o sentimento que lhe é peculiar- o sagrado, uma elaboração humana de gênese cultural para o homem afetivamente corresponder ao sobrenatural. A este legado cultural, o homem, mesmo profano, não consegue renunciar, pois os mitos e deuses adentraram de tal forma na vida humana que acabaram afigurando-se-lhe  a ponto dele enxergá-los em si próprio, em sua própria vida- que é o sagrado por excelência.

Diante de um morto sentimos respeito e pesar, diante de um recém-nascido espontaneamente sorrimos. É assim até para quem não tem crença religiosa, pois o sagrado permeia a vida do homem e em tudo evoca o sobrenatural ou o extraordinário e excepcional. As festividades de modo geral, as datas comemorativas, as competições desportivas, o troféu, a medalha, a obra de arte, o fim de semana, a virada do ano, entre tantas outras, evocam o sagrado que se manifesta nas mais variadas formas da exaltação das conquistas humanas, do mito-homem. Sem o sagrado retrocedemos à nossa condição biológica pré-histórica.

Karl Marx creu na sociedade comunista em que o homem em sua evolução histórico-cultural, um dia chegaria a habitar. O homem em seu mais alto grau de consciência, é um mito comunista com quem só se pode relacionar, crendo e por quem, só se pode lutar, confiando. O homem passa a crer em seu futuro glorioso e confiar em suas próprias potencialidades de realizar-se como tal.

A narrativa bíblica da Sião celestial nos confere uma perspectiva semelhante onde o homem ao se santificar se realiza como Deus.


 ***


QUESTÕES:

  1. Qual a diferença entre fé e crença?
  2.  A crença em seres sobrenaturais, em que sentido passa a ser racional?
  3. Por que tanto a morte quanto o nascimento mexem conosco?
  4. De que sentimentos é formado o sentimento do sagrado?
  5. O sagrado como sentimento foi formulado pelo homem para que finalidades?
6. Por que o fim de semana evoca o sagrado?
      7. Você votaria num candidato com boas propostas políticas, mas sabidamente corrupto? Por quê?